No último
dia do Festival de Cinema de Veneza, apareceu nossa maior estrela
internacional, o líder do PT, Lula, convidado pela prefeitura da cidade para
participar de um debate sobre os direitos humanos na América Latina, juntamente
com frei Betto e a guatemalteca Rigoberta Menchú, prêmio Nobel da Paz de 1992.
Lula atraiu bem menos público do que o ator Brad Pitt - que, naquela mesma
hora, a 100 metros de distância, apresentava um filme -, mas provocou
entusiasmo semelhante. A platéia era composta de idólatras de todas as idades e
nacionalidades, que aplaudiam freneticamente suas palavras de ordem, riam de
suas piadas e se horrorizavam com seus absurdos estatísticos, como o de que no
Brasil há 500.000 prostitutas menores de idade.
O pretexto
para o debate era um documentário do americano Peter Tompkins sobre a guerra
civil na Guatemala. O documentário era perfeitamente factual, contando a
história guatemalteca e as sucessivas ditaduras militares apoiadas pelos
Estados Unidos, que causaram o extermínio de 200.000 camponeses de origem maia.
A Organização das Nações Unidas acusou o Exército de genocídio e o presidente
Clinton pediu desculpas pelo envolvimento da CIA nos massacres, mas o que
importa para a Guatemala, agora que a guerra acabou, é reconstruir e relembrar
o passado. Contando com o minucioso trabalho de gente como Rigoberta Menchú e
monsenhor Girardi, assassinado alguns anos atrás, reuniram-se em dois livros
testemunhos de atrocidades cometidas durante o período. Além disso, exumaram-se
mais de 25.000 cadáveres enterrados em cemitérios clandestinos. Peter Tompkins,
no documentário, mostra um desses cemitérios, com ossadas de crianças, mulheres
grávidas e homens torturados.
A primeira
oradora do debate, depois que assistiu a essas cenas hediondas, foi Rigoberta
Menchú, que prestou depoimento sobre os crimes praticados pela direita
guatemalteca. A seguir, foi a vez de frei Betto, que, sem mais nem menos,
subverteu o tema do encontro e afirmou que os direitos humanos são um mero "luxo",
porque o fundamental é comer. Como sempre, ele elogiou o ditador Fidel Castro,
explicando que é melhor um regime autoritário em que ninguém passa fome do que
uma democracia de miseráveis.
Lula levou
esse raciocínio ainda mais longe. Depois de perder três eleições seguidas, ele
concluiu que é necessário mudar o conceito de democracia, pois há coisas mais
importantes do que votar ou ter imprensa livre ou impedir a tortura de
prisioneiros políticos. Com certo desdém, ele disse que a verdadeira democracia
não é, como pensam alguns, "a garantia de poder gritar, mas a garantia de
comer, estudar, tomar café". O público gostou muito. Todos de pé, batendo
palmas. Em menos de meia hora de discurso acalorado, Lula comprovou a extrema
fragilidade de instrumentos como filmes e livros, conseguindo apagar a memória
do documentário que tínhamos acabado de ver e os dois volumes sobre o genocídio
na Guatemala que estavam diante de nós. Afinal, aqueles 200.000 camponeses não
morreram de fome, mas só porque, como diria Lula, se atreveram a
"gritar".
Diogo
Mainardi
Revista
Veja, de 22 de setembro de 1999 – pg. 147